Friday, 15 September 2017

San Fran 2.017 - Summer of our Love



Quando me fui embora de San Francisco escolhi esta foto para a despedida. Porque San Fran é assim, um arco íris, com cores incríveis, algumas que saltam da aura das pessoas, e ainda que o nevoeiro se faça sentir quase todos os dias, o amor brilhará sempre mais alto aqui.

Nós estivemos em SF uma noite antes de partir para a road trip e festival (post aqui) e depois do festival e duas noites em Portland (capital do Oregon, cidade tranquila e cheia de carisma), ficámos mais 5 noites em San Francisco. Depois de se sair de um festival daqueles, é normal que de repente tudo pareça incrivelmente aborrecido, mas a verdade é que San Fran foi o tónico perfeito, a transição perfeita entre o paraíso e a realidade que é voltar a Portugal. Porque em San Francisco respira-se arte, respira-se liberdade e respira-se amor. Vivi dias muitos felizes por aqui, nesta cidade fria, de micro clima especial, que no entanto nos aquece os corações, seja pelas subidas vertiginosas que nos deixavam a arfar, seja pelas suas particularidades. E depois não podemos deixar de pensar que estamos na California, e as comparações com East Coast são inevitáveis. A outra grande cidade americana onde passei algum tempo foi Nova Iorque e sim NY, é NY, mas escolhia San Fran de olhos fechados. E quero muito voltar. Porque esta cidade não pára de crescer e eu quero crescer um bocadinho mais com ela. Aqui ficam algumas fotos, alguns vídeos, espero conseguir transmitir a felicidade que esta cidade me transmitiu e o quão fantástica ela realmente é. Ou que os meus olhos de amor assim a tenham visto. (Caso queiram mais dicas sintam-se livres para pedir!)







A minha hashtag para San Francisco era #adescertodosossantosajudam. Nós ficamos num hotel que fica no topo de uma colina (tivemos imensa sorte com a escolha) e fazíamos a Powell Street várias vezes ao dia. Tive pena de não ter alugado um carro, porque até eu que não gosto de conduzir me iria entusiasmar com estas estradinhas. A verdade é que este era um cenário de sonho, cinematográfico e muito íntimo como se já o soubessemos de cor (todos os filmes aqui rodados, e foram muitos, ajudam).



Castro Area - (lembram-se do filme Milk que deu o Oscar a Sean Penn?) Esta é a zona assumidamente gay da cidade, há bandeiras por todo lado, mas também há um sem fim de casinhas deliciosas, muitas galerias de arte, pequenos restaurantes e bares com muita onda e habitantes muito simpáticos.


Um dos melhores dias da minha vida terminou com este pôr-do-sol que víamos do último andar do nosso hotel que era o carismático bar em formato 360º, o Top of the Mark. Nós que somos "Sunset Chasers" ficamos de coração cheio com esta vista, que se repetiu nos 2 dias seguintes.


Um Sábado à noite na Califórnia, what else.



Vários clichés Americanos numa foto só. Cable Car de San Francisco e o famoso scrunchie.
(Sex & The City, hello?)







Bucket List, atravessar a Golden Gate. Optámos por fazê-lo de bicicleta, eléctrica ermmmm, e não poderia ter sido melhor. É bem mais caro optar por uma eléctrica, mas depois de fazer tantas milhas e algumas subidas vertiginosas, achámos que valeu mesmo a pena o investimento. Foi um grande dia! Daqueles que temos de nos beliscar várias vezes para ter a certeza que não estámos num sonho ou na tela de um filme.



Depois de passar de Ferry e ver Alcatraz de perto somos recebidos pelas dezenas de leões marinhos no pier.


Fim do dia pós Golden Gate com as pernas desfeitas (e era eléctrica!), Alcatraz na foto da direita. Muito Vento para dar aquele boost giro às fotos!



Passear por San Fran é uma experiência sensorial por si. As ruas com as suas descidas e curvas são alucinantes. Nunca fotografei tantas ruas na minha vida. A minha vontade era publicar aqui umas quantas dezenas, mas acho que vou trabalhar melhor as fotos e quiçá fazer um álbum, pois merece. As áreas residenciais eram muito limpas, com edifícios pitorescos e street art fantástica.





Sem querer tropeçamos numa manifestação a favor da igualdade dos direitos LGBT e raciais. Era uma manifestção anti-Trump também. Não resistimos a nos juntar a eles. Afinal nós também somos pelo poder do Amor. Sempre! Disseram-nos várias vezes antes de chegarmos aos EUA para não falarmos de política e nós assim o fizemos. A verdade é que os próprios americanos, e também muitos emigrantes, traziam o tema à baila. Perguntavam-nos se nós sabíamos do que se passava nos EUA com Trump. Eu contava-lhes que quando acordei no dia das eleições e vi o resultado, chorei, e o mesmo aconteceu com muitos amigos. Apenas aí percebiam a dimensão que os EUA tem na Europa e que sim, nós somos muito atentos. 



Dolores é um parque onde aos Sábados há sempre alguma agitação. Entre piqueniques, festas de anos e muita gente a apanhar sol, apanhámos este animado grupo que se manifestava em função do amor livre. Vejam o vídeo porque é o máximo e transmite muito o espiríto de liberdade vivido nas ruas.


Restaurante Cha Cha Cha. Cubano com décadas de tradição. Para além de ser um vislumbre visual, come-se muito bem e é super barato.  




Mais das vistas do nosso hotel. Estes fins de tarde fizeram-nos extremamente felizes. Toda a gente dizia que tivemos imensa sorte com o tempo porque apanhámos dias limpos e até algum calor. No primeiro dia que subimos ao Top of The Mark estava tanto nevoeiro que as janelas pareciam que tinham um pano branco grosso a cobri-las.




Restaurante Sotto Mare em Little Italy. Daqueles must go. Bom, barato e bonito. Comemos ao balcão de babete e usámos as mãos para comer o delicioso marisco. Não fazem marcações, mas dão-nos um pager quando chegamos e podemos passear por Little Italy, ou mesmo ir ao bar de vinhos em frente, que é um ex-bordel de Belle Cora (uma personagem fantástica da história de SF), e esperar enquanto apreciamos um Napa Valley.



Depois de passar a Golden Gate, pedalamos mais uma milhas e fomos até Sausalito apanhar o Ferry. Sausalito é uma pequena vila pitoresca de Verão. Aí percebemos definitivamente como SF tem mesmo um micro clima, como uma nuvem que a abraça a si unicamente, e em Sausalito apanhámos as temperaturas da California em Agosto. Fez-me lembrar os Hamptons mas em versão mais pequena. Tinha imensos clubes com décadas de história, uma marina apetrechada, barcos-casa, e muitas lojas e gelatarias para nos perdermos. 






Ir ao MOMA de San Francisco foi uma óptima escolha para uma manhã e passamos lá algumas boas horas. A exposição sobre o Summer of Love tinha acabado dias antes e como não a conseguimos ver, foi igualmente bom ter acesso a tanta arte moderna, muita do Summer Love, arte psicadélica e instalações sensoriais inacreditáveis. E no fim fomos brindados com uma sala apenas com clássicos: Matisse, Dali, Diego Rivera, Frida Kahlo, Munch, Miró, etc




Um taxista tinha-nos falado deste bar/ restaurante, Café Zoetrope, quando lá passámos e neste dia não resistimos a ir. Pertence ao Francis Ford Coppola e está cheio de fotos originais, livros de cozinha da mãe dele (italiana), muitos prémios recebidos e... Muito Godfather material. Os dois somos super fãs da trilogia por isso ficamos um bocadinho em modo groupie (vá mais eu). Este restaurante é usado por ele como escritótio e reza a lenda que ele está lá muitas vezes. Assim como outra realeza de Hollywood que podíamos ver nas fotos. Os preços não eram muito caros, podem aumentar a foto do menu, (partindo do princípio que tudo é caro em SF), e tinhamos o vinho que o FFC produz. O espumante rosé dele chama-se Sofia, como a filha de quem sou mega admiradora (eu avisei, groupie alert!)


Esta foi a nossa primeira date night a sério em SF e queríamos bom Sushi. A foto da esquerda fica no centro financeiro de SF, (que lembra imenso Wall Street) e é uma zona com muito bons restaurantes e boas lojas, as melhores. Também viemos a esta zona para um pequeno almoço orgânico que custou mais do que um almoço, mas também valeu por um almoço! Este restaurante, Pabu, também não era dos mais económicos mas foi sem dúvida, o melhor sushi que comi na minha vida. E o ambiente era incrível, daquele sitíos em que dizemos: valeu cada cêntimo. E sim, queremos voltar!


Este foi o primeiro dia que passámos inteiramente em SF, e o Eurico convenceu-me a andar mais um bocadinho para chegarmos junto do mar. Já tinhamos caminhado uns 15 km e eu estava de rastos. Mas ele fazia mesmo questão que eu molhasse os pés no Pacífico, que era o único oceano que me faltava. Resisti um bocadinho, estava frio, mas depois: que alegria e emoção, algumas lágrimas. Definitivamente bucket list também. 



Acho que a primeira foto faz legenda à segunda. Amor. Amor com muita cor. Que dias felizes.




Ir a San Francisco significa andar de eléctrico. Nós resistimos uns dias até que percebemos que as nossas pernas não davam para tanto. E depois não queríamos outra coisa. É realmente uma experiência bastante turística mas muito satisfatória. Nós tivemos a sorte de encontrar o John, este funcionário que estava no travão do eléctrico e animava toda a viagem cantando, vejam o vídeo. Nesta foto de cima está a Lombard Street, a famosa rua em curva e contra-curva. Estava sempre tanta gente que optamos por não sair, mas não deixei de sentir borboletas no estômago por saber que o Vertigo, o meu filme de Hitchcock favorito, foi gravado aqui.



Em 1967 aconteceu o Summer of Love em San Francisco. Artistas vieram de todo o lado conforme o burburinho se espalhava. Foi a descoberta do LSD que na altura era legal, há milhares de obras feitas sobre os efeitos alucinogénicos desta droga. Foi a altura do amor livre, de se lutar pelos direitos da igualdade. Foi a altura de revolta contra a guerra. Do "Make love not war!". Foi aqui que nasceu o movimento hippie, o Flower Power. Como faziam 50 anos sobre o Summer of Love havia referências ao movimento na cidade inteira. Até nos bares onde haviam cocktails especiais. Esta foto (e o vídeo que abre o post) foi à porta do anfiteatro que recebeu a exposição com toda esta pintura, fotografia, música, moda, etc. Foi até capa da nossa revista Visão! Não vimos por uns meros dias, mas sentimos, como sentimos. (E já encomendámos o catálogo, e um pequeno quadro cá para casa.)

Quem me dera ter vivivo o Summer of Love, mas vivi 50 anos depois, um Summer of Our Love, o que já não é nada mau, pelo contrário, foi ma-ra-vi-lho-so! Farewell San Fran, see you soon!



San Francisco, Agosto 2017
Summer os our Love

Sunday, 3 September 2017

Oregon Eclipse Gathering



The real you is pure poetry, pure creative possibility, and pure delight. The closer you come to realizing this, the closer you come to finding your heart's most treasured path. This is what your dreams keep telling you, so open your eyes wide. 
You are so much more than you think you are.

Ana Lora Garrard 
(Retirado do livro Your Dreams que comprei em segunda mão em Portland)



Por onde começar? Bem eu não acho que consiga explicar muito claramente aquilo que foi o Eclipse Gathering ou o que vivi. Não que vocês não tenham abertura para isso pois acredito que tenham (vá, uma grande maioria sim), a mim é que me falta vocabulário e lucidez para passar para o papel uma experiência tão intensa. E é engraçado falar de lucidez pois comentei isto ao longo da semana que estive em convívio com outras pessoas fora do festival. Encontrei muitas pessoas interessantes em Portland e San Francisco, especialmente SF, mas nunca uma massa tão lúcida de pessoas como no Eclipse. E quem vir de fora acha isto um pouco estranho porque afinal eram um bando de freaks. "Nós somos freaks?" Perguntei eu ao meu marido a meio do festival. E ele respondeu-me que não sabia. Eu disse: "espero que sim." 



No caminho para aquela floresta encantada no Oregon, durante a road trip de 900 km feitos numa motor home com 3 pessoas que tínhamos acabado de conhecer e um amigo de outros carnavais (literalmente), estavam todos a dormir quando eu e o Jay, dono da van tivemos esta conversa. Estávamos apenas os dois acordados e eu consegui entrar com ele a um nível de profundidade intelectual que normalmente não consigo. O Jay tem cerca de 60 anos e é produtor de música. Trocámos vivências, falámos de sonhos, a dormir e acordados, ambos chorámos. A determinada altura achei que estava a viver ali na estrada a primeira epifania desta minha viagem, foram várias é certo. E houve algo que o Jay disse que define todo este percurso entre entrar no festival, viver uma semana intensa e sair para o mundo cá fora tão diferente. Algo como: "If there is going to be a total solar eclipse in America for the first 99 years in history, there's no place I'd rather be than in the middle of a beautiful forrest with 55 thousand more freaks." (Well neither do I Jay, NEITHER DO I). 
E na altura disse-lhe aquela coisa do Mário de Sá Carneiro no conto "A Loucura". De que a loucura é uma questão de minoria porque se em maioria fossem os loucos então os sãos, loucos seriam. E sem dúvida que este festival estava cheio de pessoas sãs, lúcidas. Freaks? Talvez. É uma questão de maioria ou perspectiva. Mas aí entramos na segunda parte da questão. O que se passa durante uma semana num festival assim? Quem lá vai e porquê? Afinal porque é que esta é uma experiência capaz de mudar uma vida?



Primeiro vou explicar rapidamente o que foi o Solar Eclipse Gathering. Este festival tem como base o Symbiosis que é um festival que acontece anualmente na California, parecido ao nosso Boom (e tanta mas tanta gente que me falou do Boom como um dos melhores festivais/ experiências do mundo para profundo orgulho meu) com música, artes e diferentes terapêuticas através de um calendário programado de uma semana, mais uma série de coisas que acontecem espontaneamente (e que algumas são as melhores de todas). A propósito deste evento único que era o Eclipse, o Symbiosis juntou forças a 14 mais festivais de todos os continentes e juntos, criaram nesta linda floresta junto a um lago no Oregon, um micro cosmos. Uma aldeia global onde o amor era a língua falada. O festival tinha 6 palcos principais e vários domus para terapias e workshops mas um pouco por todo lado algo estava a acontecer. Fosse um tarot gigante em que cada porta era uma carta ou uma praia com escorregas onde os insufláveis ultrapassavam as centenas, fosse o Dave the Rainbow que era um Californiano entre o louco e o génio, que passava o dia a servir dezenas de chás diferentes e a convidar as pessoas a verem os seus quadros psicadélicos numa sala que criou para o propósito. Por isso mais que estes festivais participantes, o Eclipse foi feito por cada um de nós que lá estava. E ai como foi.




Quando penso numa experiência destas alegro-me sempre por pensar que as pessoas estão a abrir um pouco os seus horizontes. Hoje em dia o nosso Boom já não é tanto visto como um bando de fritos a queimarem neurônios para os lados de Idanha. E em muito contribui a popularidade de festivais internacionais, igualmente transformacionais como é o caso do Burning Man. Não me levem a mal, mas eu agradeço que só venha quem saiba dar o melhor de si. Quem esteja disposto a abrir portas e janelas e respeitar a liberdade dos outros e a limpeza do meio ambiente. E isso foi sem dúvida o que aconteceu no Eclipse até porque era demasiado longe para alguém lá ir parar aleatoriamente. As pessoas tinham mesmo de lá querer estar. E queriam. Alguns foram de perto mas esperaram 24 horas na fila para entrar. Alguns até foram de tão longe como a Austrália ou Japão. Nós de Portugal. E valeu cada milha.




Mas afinal quem constituiu esta massa gigante de gente? Tudo boa gente sem dúvida, durante uma semana não ouvi ninguém ser menos simpático ou mais agressivo. Não vi grandes excessos também, o que até me surpreendou um pouco. Desde os yogis, os das medicinas alternativas, os que gostam de raves, os que apreciam arte, os que iam em família com 2 ou 3 filhos pequenos, os curiosos. Artistas, médicos, psicólogos, contabilistas, índios curandeiros sul-americanos. Diversas tribos. Pessoas que durante uma semana podiam ser quem exactamente lhes apetecesse ser. Que depois se viria que não era muito mais do que elas próprias porque não havia muito lugar para fingimentos aqui. 90% das pessoas por quem passavamos nas ruas de terra (sim, comemos muito pó) nos perguntavam se estávamos a ter um bom dia, elogiavam algo que tínhamos vestido ou os nossos olhos. Perguntavam de onde éramos e davam o melhor para falar um pouco do nosso país ou ensaiar umas palavras em Português. Para nos darem um abraço e dizerem que sabiam que íamos ter uma vida bonita. Para partilhar fosse o que fosse. Esta é sem dúvida uma terra do amor. Amor em elevado estado de consciência e fraternidade. Comi fruta das mãos de inúmeras pessoas, bebi águas, sumos, emprestei coisas, emprestaram-me a mim. Dei muitos abraços. Cada um tinha um bocadinho para dar, fosse a sua história, fosse algo que nos fazia falta ali onde os bens eram escassos mas a boa vontade era imensa. Por exemplo nós viajamos sempre com uma verdadeira farmácia para todas as maleitas, principalmente para um país como nos EUA, onde é difícil conseguir um antibiótico. As nossas malas perderam-se mas parte desses primeiros socorros estavam connosco e apesar de não termos precisado de nada pudemos ajudar outros que precisaram. E que ficavam tão gratos que nos retribuiam com uma peça de artesanato, com um cristal, com uma flor, com um sorriso. Não que algo fosse requerido. Era simplesmente o fluir natural deste ecossistema.




Um aldeia perfeita então? Sim e não. À noite as temperaturas caiam e nós que ficámos sem malas não podíamos ser muito criativos para o frio, que vale é que somos mais animais de dia, onde todas as cores são tão brilhantes antes de darem lugar aos néons.  O pó era muito, estive suja como nunca, no dia do Eclipse vesti um macacão de linho branco e ele chegou tão sujo ao fim do dia que eu jurei que o ia emoldurar com a frase "this is what happens when you have too much fun". Os banhos eram escassos mas sabem, ao fim de dois dias pouco importa. Conseguíamos ficar a rir durante 5 minutos seguidos quando eu parava na pista de dança para dizer que tinha uma pedra na sandália. "Descalça-te então". Para nós em muito ajudou o Lost Hotel, um ready set camp com uma cama, ficha, candeeiro e dois edredons, mas verdade seja dita quando lá chegamos as tendas deles ainda nem tinham chegado. Foi tudo parte do processo, of the trip, of the journey. Seria diferente se o jacuzzi de água quente do Lost estivesse a funcionar, se eu tivesse os meus outfits que tinha levado de Portugal, se não tivéssemos furado um pneu na ida para lá. Tudo fez o nosso percurso e ainda bem que assim foi porque um mundo perfeito não existe. Aqui só conseguimos criar um mundo um pouco mais consciente e ao mesmo tempo descomprometido. Gente que não se leva muito a sério mas que se leva muito a sério. Entendem? E todos faziam parte. Fosse a minoria de jeans e t-shirt, fosse a turma do glitter, os fatos de sereia e Elfs, as instalações de arte absolutamente magníficas. All in one.




Last but not least queria vos falar do eclipse. No dia anterior fomos a uma meditação com um homem cultíssimo que por coincidência jantou na nossa mesa no dia seguinte. Eu perguntei -lhe como podia potenciar as minhas intenções para aquele acontecimento cósmico ("intenção" talvez tenha sido a palavra que mais ouvi nesta semana) e ele disse me para as escrever. Assim fiz. Na manhã do eclipse houve uma cerimônia organizada pelos velhos curandeiros que vinham da América do Sul (e que foram uma parte essencial da minha experiência): velhos, crianças, aldeias ali representadas. Quando o céu ficou totalmente escuro e em vez do sol vimos uma bola de fogo e alguns planetas, toda a gente ficou em silêncio absoluto. Afinal tínhamos ouvido descrever aquele momento mas não estávamos preparados para a força e emoção que tomou conta de 55 mil corações. Abraçámo-nos, abençoámo-nos, chorámos. Segurei com força na mão as minhas intenções no papel que se juntaram a um cristal que me deram e depois queimei-as, juntamente com um pouco de tabaco e salva junto a um fogueira de sacred fire mantida em permanência por aquelas tribos. Eles, tais como todas as outras tribos ali presentes fizeram o seu papel, às vezes sem imaginar o quanto. E não havia cá show offs, não havia pretensões. Toda a gente estava ali a ser o que era "sem merdas"; é o melhor termo que arranjo para descrever esta massa: "sem - mer - das". Ainda que estivessem vestidos de unicórnios da cabeça aos pés.



Dei por mim a pensar várias vezes que a vida era tão simples, tão subjectiva, que nós éramos tão sortudos, que acabamos por cair no ridículo com a importância que damos a determinadas coisas. Mea culpa. Depois de 8 dias sem me ver num espelho, sem ter rede de telefone, sem saber que horas ou que dia da semana era, passei a achar que o céu é das coisas mais bonitas que já vi na vida. E a cada dia ficava ainda mais bonito. Talvez porque nunca tinha ficado tanto tempo a olhar para ele... 
O poema do Benedetti que foi lido no meu casamento diz "y las cosas más triviales se vuelven fundamentales porque estás llegando a casa". Eu aqui mudaria para "y las cosas más fundamentales se vuelven triviales porque estás llegando a casa". E esta terra sagrada foi a casa de todos nós, será sempre nas nossas memórias, nas nossas acções futuras mais conscientes e nos nossos corações. Não vamos de repente todos virar monges tibetanos, mas com certeza que algo na nossa percepção do mundo mudou para sempre.



Um grande viva a este micro cosmos onde cada um é livre de ser quem bem lhe apetecer e na sua maioria isso significa ser alguém que marca a vida dos outros. Através das histórias (histórias de vida que me encheram de esperança, outras de tristeza e coração apertado), da arte (tanta arte!), das gargalhadas, dos sorrisos e abraços, dos ensinamentos, das terapias, da música, boa música! E que marcaram a minha para sempre. Não consigo explicar muito melhor que isto. Só vos digo: vão. Saiam da vossa zona de conforto. Seja um fim de semana sozinhos numa cidade nova, seja um retiro espiritual. Quanto mais viajarem dentro e fora de vós próprios, melhor se vão conhecer e preparar de sorriso no rosto para este mundo que é bem mais cruel que este paraíso parte natural, parte artificial, mas sempre autêntico.  Vamos a mais algumas fotos que garanto, não fazem jus à beleza e surpresa de tudo o que vi.  Estas que se seguem não estão editadas, deixo à consideração da vossa retina.





































16th to 23th of August. 2017,
Ochoco National Forrest
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