Thursday, 24 November 2011

Português sentido - Acção de Graças


Este post não deveria ser escrito neste blog e sim no outro. Naquele onde escrevo em português e falo do que me vai à flor de pele mais propriamente do que o que a cobre. Mas hoje apetece-me que seja aqui.
Eu tinha um professor na faculdade cuja cultura americana tinha um ascendente enorme sobre ele. Tinhamos um bom relacionamento e um dia confidenciei-lhe que tinha o sonho de passar o Thanksgiving  em Hartford (a cidade da Emily e Richard Gilmore da série Gilmore Girls). O meu primeiro Thanksgiving (tentei reproduzi-lo algumas vezes antes em Portugal mas nunca ninguém me levou a sério) foi passado em Bristol no dia 27 de Novembro de 2008. Estava lá há exactamente 2 meses e 5 dias e estava apavorada. Bristol não foi fácil para mim, nunca foi fácil, mas o período até ao Natal onde fiquei dois meses sem vir a Portugal e vi a minha sobrinha bebé a crescer através de uma webcam foi absolutamente aterrador. Mas era Thanksgiving, estava animada nesse dia. O meu departamento era pequeno e contava com quatro alunos americanos. A Christina, com quem celebrava o 5 de Mayo todos os Sábados, e que representava o Wisconsin no seu melhor, o Ian que era mormon e por isso uma pessoa muito recatada mas extremamente interessante. Era tão diferente de tudo que eu conhecia, tão ingénuo e puro que era fascinante. O California (eu lá era a Portugal) que era um miúdo de 22 aninhos de ascêndia mexicana que sempre que bebia uns copos acabava a rebolar pelo chão e a dizer que aquele era o melhor momento da vida dele seguido de enormes apagões. Sempre! E o Shahan, o típico menino de LA que vi no primeiro dia de aulas e achei logo que tinha ar de bad boy e que mais tarde descobri ser orgulhosamente Arménio, refugiado no Iraque aquando do massacre e mais tarde refugiado nos EUA quando se deu a Guerra do Golfo. Um dos melhores amigos que lá fiz. Ficaria aqui a descrever o resto do grupo composto por gregos, espanhóis, ingleses, indianos, chineses, holandeses e por aí fora mas nunca mais sairia daqui.
Tinhamos americanos logo teríamos jantar de Thanksgiving. Fomos comprar um peru gigante, fizemos todos os pratos típicos americanos, eu levei duas alheiras assadas (que eles adoraram) e duas de tinto do Douro (que adoraram ainda mais). Eu não me lembro quais foram as minhas graças, lembro-me do momento que o fiz, lembro-me que devo ter sido honesta mas não me lembro do que disse o que é estranho pois tenho uma memória assustadora. Curiosamente lembro-me perfeitamente do que dizia o meu bolinho da sorte chinês (jantar internacional, se há alheira há bolinho da sorte) que era algo como: "If you complain too much about your bad luck maybe you should stop blaming the luck." E aqui entra a segunda parte da história.

Se quero escrever sobre o que estou grata este ano tenho de voltar um ano atrás no tempo e pensar no que aconteceu desde então. Há um ano atrás, exactamente um ano eu estava a passar 3 dias em Londres depois de muitos meses sem ir a Inglaterra. Cheguei às nove da manhã e no taxi para o hotel ouvi a notícia do noivado real. O taxista, paquistanês se não estou em erro (faço sempre conversa com taxistas), não ligou nada àquilo. Cheguei, fiz o check in no delicioso hotel em Hyde Park que consegui por um bom preço no Booking e fui almoçar com o Tom, o meu melhor amigo de Inglaterra, aquele que merece bem mais do que apenas uma referência neste post. Almoçámos, passeámos, arruinei-me na Tiffany, jantámos cedo, bebemos uns copos e voltei para o hotel. Eu adoro hoteis sabem. Adoro. Nada me deixa mais tranquila do que estar sozinha num quarto de hotel. Mas naquela noite estava inquieta, ansiosa. Já não conseguia ouvir mais o princípe Harry dizer que estava ansioso por ter a Kate como irmã, só lá estava há umas horas e já não tinha paciência para os preciosismos britânicos de que tanto senti falta. Talvez tenham sido as recordações, o sentir-me desamparada naquele momento com forte carga emocional. Não foi uma noite fácil. E semi morta acordei disposta a fazer aquilo que melhor faço: compras! E sozinha porque é da forma que mais gosto.
Meti-me num taxi para Oxford Street, estava um frio medonho... Entro na Primark pela primeira vez na vida (nunca tinha conseguido tentar antes, assustava-me) para comprar uma fita para me aquecer as orelhas e tudo volta. A ânsia, o nervosismo... Estava inquieta, respirava com dificuldade. Sentia-me confusa, a minha vida estava completamente indefinida a vários níveis. Tinha acabado de sair de um emprego supostamente de sonho que se tornou num inferno e ainda não tinha tipo forças para reagir. Não sabia o que ia ser do meu futuro, o Natal estava à porta, eu ansiosa e não tinha nem queria preocupar os meus que estavam tão longe. Tinha de lidar com aquilo. Saí para uma Oxford Street de Natal iluminada e o meu primeiro impulso foi: cinema. Vou-me meter num cinema e ver um filme sozinha, um dos programas que mais adoro, believe it or not. O cartaz era fraquíssimo e fez-me desistir, andei mais um pouco completamente desorientada até que entro na mega store da Disney onde tirei a foto de telemovel em cima, há exactamente um ano atrás.
Eu não gosto de abraçar pessoas, não me levem a mal, mas tirando 4 criaturas neste mundo (5 em breve) eu não me sinto confortável com abraços. No entanto acho absolutamente reconfortante abraçar peluches. Gosto de pôr as patas deles à volta do meu peito e abraçá-los com tanta força como se os fosse esmagar. E aqueles abraços distribuídos gratuitamente a toda a familia Disney fizeram mais por mim do que 3 calmantes poderiam fazer.

E... (parabéns se chegaram a este ponto, eu sou uma fala barato que gosta de contar histórias) aqui está a minha maior graça. O motivo da minha ansiedade de há um ano atrás desapareceu. Convenci-me que tal como o bolinho da sorte chinês dizia, sorte é algo que temos de procurar. E a minha vida tem muitos baixos, sou uma pessoa muito exigente comigo mesma e com o mundo, logo constantemente insatisfeita. Continuo a ter de lidar com problemas que se vão agravando ano após ano mas o motivo daquela ânsia desapareceu tal como desapareceram até então os episódios de extrema ansiedade. Sei onde estou, sei o que quero. Tenho paz de espírito em doses moderadas. E isso meus caros... É mais do que suficiente para estar grata. Happy Thanksgiving!

19 comments:

  1. Happy Thanksgiving! Ainda bem que tens muito para agradecer e encontraste o teu caminho!!!

    No meu caso, sou mais velha do que tu, e por mais que procure ainda não consegui encontrar o meu! E ainda pior, ainda não sei o que quero.

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  2. Acho que nunca sabemos realmente, a vida troca-nos as voltas. Mas definir objectivos é um príncipio :) Boa sorte e um beijinho.

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  3. Que texto fantástico, Raquel! Happy Thanksgiving! É muito bom que tenhas muito para agradecer e que te sintas bem. Eu também estou num caminho de busca. Também sou uma eterna insatisfeita demasiado exigente consigo própria mas apenas consigo ser desta forma. Mas também tenho pelo que dar graças e isso é bom :)

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  4. Parabens pelo texto, não sabia que tinhas outro blog e foi uma boa surpresa. Se pensarmos bem todostemos algo que agradecer o problema é que nos focamos sempre nos problemas esquecendo tudo o que tambem há de bom. Recentemente resolvi adoptar uma nova postura, o meu emprego é detestável? é sim sr, mas tenho a sorte de ter amor na minha vida e isso não tem preço. Só tenho a agradecer, se temos saude e amor o resto há de compor se.

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  5. Bem por ti querida, todos precisa-mos dessa paz de espíritu.

    ***
    www.theprincesslittlebox.blogspot.com

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  6. Espero, um dia, encontrar essa paz de espírito! Sentir-me bem comigo e com o que está à minha volta. São tantas coisas ao mesmo tempo, tantas incertezas... adorei o post Rachel! Mesmo! :)

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  7. viva a disney, viva londres! Já fui muito + ansiosa também...as vezes acho que estou "curada" mas o que acho mesmo é que estou a crescer. Mas saber o que me faz feliz ainda é as vezes uma incógnita! isso de pavor de entrar na primark é hilarious!! E foste logo à de oxford street!!! ahahh daaaaaamnnn *

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  8. A paz de espirito it comes and goes, daí o "doses moderadas". Mas sim, é muito bom quando nos sentimos bem na nossa pele. Quando temos um bom motivo para sair da cama pela manhã mesmo que em protesto. E essencialmente a saúde e o amor, tudo o resto se reduz a nada quando não os temos. E eu sou muito muito amada felizmente :)

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  9. Hella: curiosamente a loja estava calma senão nem tinha entrado. E a fita para as orelhinhas foi mesmo importante para elas não caírem congeladas :) E olha lá se parassemos de procurar o que nos faz felizes, o que seria de nós?

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  10. Acho que encontrei alguém no meio das palavras e na história que contas.
    Um alguém que se sente por vezes assim, noutras Londres do mundo, que tenta encontrar a serenidade sozinha no meio de uma multidão.
    Por vezes encontra-a outras vezes não.

    Beijinhoos*
    E que tenhas sempre bons abraços para receber, daqueles que tu gostas <3 ;)

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  11. Parabéns, Raquel, gostei muito. Eu também já me senti assim, perdida e parece-me que essa situação se vai repetir muitas mais vezes do que eu gostaria, em todo o caso, temos que parar e escutar o nosso corpo, a nossa mente.

    Finalmente, encontrei alguém que sente o mesmo que eu em relação a abraços. Quando sou abraçada por pessoas fora do "meu" circulo, sinto um desconforto imenso.

    beijinho *

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  12. Raquel, este blog devia ter mais posts como este!!! Senti-me 100% identificada, não propriamente pelas situações em si, mas pela mistura de sentimentos que tão bem conseguiste captar. Adorei ler-te!

    Beijinho

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  13. Cheguei!! É a manera mais "divertida" que tenho de aprender português, além disso gosto dos teus textos :)

    Beijinhos

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  14. Happy Thanksgiving para ti também!
    Adorei ler este post. É uma inspiração para aqueles que ainda andam à procura daquele "algo" que às vezes não se sabe bem o que é. =)

    Bjs,
    matita

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  15. Não esperava um texto assim aqui. Percebo bem a tua história, percebo e ansiedade e a exigência a nós prórpios. Acho que começo a perceber a parte boa da história, perceber quem sou e como lidar com isso.

    Todos temos muito pelo qual devemos agradecer e hoje posso também agradecer-te a ti, por teres partilhado estes momentos connosco. Porque fazem-nos pensar e lembrar que por vezes temos de ficar bastante nervosos e ansiosos para a calma e paz total se poder apoderar.

    *beijinhos

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  16. gostei muito de ler isto, uma vertente tua que não conhecia. espero que este Thanksgiving esteja a ser bom e que o aproveites da melhor forma possível ;)*

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  17. estranho este post aqui, sim. muito. tou habituada a ler assim, tão intimamente no boullevard. acho que mais que alcançar é definir uma rota. não um caminho, isso é muito especifico. uma rota que nos guie para onde achamos que podemos encontrar algo interessante, que nos abra a curiosidade e que nos dê essa tranquilidade em doses moderadas. acho que tranquilidade constante e omnipresente nos torna também muito passivos. achamos que encontramos aqui queremos, mas devemos manter-nos curiosos. importante é dar valor às pequeninas coisas (e não só às grandes) ao longo da rota. isso faz se agradecendo. happy thanksgiving*

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  18. Eu sei que o texto não se encaixa no formato do que escrevo aqui mas quando abrir o blogger para o escrever tive vontade de o partilhar com vocês e não no outro que é tão mais privado. Mesmo correndo o risco de me expor em demasia foi algo que fiz naturalmente. Eu sou assim, sou a geek do Residência Fixa nas Nuvens e sou a shopaholic futil e compulsiva do Teenie Weenie.

    Está a ser um bom Thanksgiving na companhia de um Murganheira tinto reserva e da minha família com os disparates do costume :) Beijinhos a todas pelas palavras queridas.

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I believe in the power of Love! Thank you for coming and sharing.

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