Tuesday, 30 October 2012

Em Portugal não se ditam tendências, mostram-se identidades.


Pequeno texto crítico que escrevi sobre as tendências encontradas no nosso país, ou melhor sobre a falta delas, no âmbito do último Portugal Fashion e também Moda Lisboa. Directamente ligado a este excepcional pensamento desenvolvido pela Fashion Thinker Joana sobre o ADN na moda portuguesa. Espero que gostem deste registo um bocadinho mais sério. Podem ainda ler aqui o meu artigo "O que se calça no Portugal Fashion" no Portuguese Soul.

Depois de um mês em que a moda se apresentou ao mundo, começando por Nova Iorque e acabando em Paris, com passagem por Londres e Milão, é sempre de forma um pouco acanhada que as semanas de moda mais desconhecidas, tais como as nossas, ficam posicionadas no mapa mundi desta indústria. A discrição com que a nossa moda passa para o mundo, fica-se não só pelos jornalistas internacionais que pouca ou nenhuma importância lhe dão, como pelos próprios designers, que não podendo competir com os orçamentos de uma qualquer “maison” internacional, parecem ficar a anos de luz do que é feito lá fora. O Portugal Fashion é apenas mais em exemplo disso, e fácil de entender, tendo em conta de que estamos a falar de estratos completamente diferentes, contra os quais os nossos designers, com pouco apoio e por vezes até com bastante esforço, não podem competir.

Uma coisa que parece transversal a muitos dos nossos designers no entanto, são as tais tendências ditadas anos antes em feiras parisienses e que fazem com que em muitas das semanas da moda internacionais haja uma homogenia no que diz respeito a cores, cortes e estampados. Talvez por não terem uma pressão do mercado internacional tão vincada, os nossos designers parecem simplesmente fazer aquilo que lhes agrada, continuando com as estórias que começaram a contar noutras edições ou rompendo totalmente com estilos anteriores. 
Se assim não fosse não teríamos um Alves/ Gonçalves em tons de preto e branco e um Miguel Vieira recheado a fluores e cores “candy”. Não teríamos uma colecção Buchinho Resort tão “clean” e estilizada e outra Anabela Baldaque tão cheia de tudo em linhas que se cruzam de forma caótica. E se Storytailors, continua a mostrar os corpetes que os tornou famosos, ao mesmo tempo que trazem para a passerelle padrões futuristas e formas que não esperaríamos deles, Diogo Miranda mantêm-se fiel aos seus vestidos de costas abertas femininos, acrescentando no entanto uma linha mais desportista e atrevida que nos transporta para um imaginário Nova Iorquino. Apenas Felipe Oliveira Baptista, pela experiência internacional e background profissional que tem, parece não surpreender de ano para ano, mantendo-se sempre no Olimpo da moda nacional.

A edição Time Line deste Portugal Fashion pareceu não responder a cânones de estética, e ditar quais são as tendências que daí ficam não é tarefa nada fácil. Acho que cabe a cada um absorver o que foi feito e tirar partido daquilo que melhor nos veste. Sem dúvida terá sido isso que os nossos designers fizeram, lutar pela individualidade uma vez que apenas assim mantêm a sua identidade. 

13 comments:

  1. Texto excelente;) Não podia concordar mais, ainda bem que parecemos não responder a canones, não sofrer grandes pressões do mercado internacional e ainda bem que o resultado não é essa homogeneidade toda. Se era bom que os nossos designers recebessem mais atenção do exterior? Sem dúvida, mas por outro lado acho que é isso que lhes tem mantido a criatividade, é isso que nos tem mantido como admiradoras incondicionais do seu trabalho e é por isso que ainda nos conseguem surpreender a cada colecção.
    E quando a Joana diz que caberá a cada uma de nós absorver para saber tirar partido á posteriori, não podia estar mais de acordo, pois acho que é mesmo por aqui que podemos começar a falar de identidade e de estilo.

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    1. Eu concordo com isso mas o problema que aí se levanta e que a Joana fala tão bem, no texto dela no Fashion Thinkers, é que se os nossos designers não pensarem no mercado, um dia acabarão por simplesmente desaparecer. Se calhar urge alguma homogenia entre génio criativo e o que vende.

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  2. Parabéns pelo texto Raquel, adorei o texto e não podia concordar mais com o que disseste*

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  3. Adorei o texto! Como sempre bem escrito e com a ideia fulcral bem exposta! :)Concordo com o que dizes, mas é a velha dualidade entre criatividade/sustentabilidade :)
    Bjs!!

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    1. Tem de ser. Caso contrário as grandes marcas nunca tinham vingado.

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  4. Rachel estou a gostar muito da evolução e afirmação da tua identidade.

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  5. Em primeiro lugar gostaria de dizer, que nem imaginas o duplo alívio e satisfação que tive a ler este post. Por um lado porque sou apreciadora da boa escrita e não vejo a moda apenas como uma feira de vaidades, mas, sim como, um assunto sério que deve ser levado com responsabilidade, afinal de contas é uma indústria que move milhões e não só no output final, o que se vende nas lojas. E depois porque ouço várias vezes em casa, um agora já "não decepcionado" mas conformado, marido que também é designer de moda (que conta com um vasto currículo e felizmente no ativo) e que há muito já desistiu de ver o que é português (inclusive desfiles) não porque não goste do que é nacional, mas sim porque o que se faz por aqui, (e digo de uma forma mais branda) nem que sequer acompanha o que se faz lá fora.
    gostei muito:)
    beijinho

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    1. Obrigada. A moda é tudo isto, aliás a moda é mais isto do que outra coisa qualquer mas a tendência é sempre a de olhar para o produto final. É uma frustração sem dúvida a realidade que temos. Mas acredito que possa mudar. Gente com vontade de batalhar nesse sentido não falta.

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  6. Bom texto, Raquel! Hoje foi um dia bom. os meus pensamentos ligados à moda estiveram sempre conectados com problemas reais, para além dos habituais "quero" e "ai que lindo". A moda também se pensa e discute e isso é tão salutar.

    Muito há a dizer sobre este assunto mas refiro apenas que junto a moda a outras áreas tão diferentes como a dança, o teatro e outras formas de cultura, ou indústrias que impliquem a constante existência de criatividade. Um criador não pode distanciar-se do seu público, por mais que seja em nome da arte ou da criação. Isso afasta o público. Extingue o público. Torna a área incompreensível e o resultado é óbvio: mais tarde ou mais cedo essa área extingue-se. Não quero com isto dizer que o público é inculto, apenas que, para se criar, tem de haver público e os seus desejos devem ser respeitados.

    Gosto das soluções mitigadas, economicamente viáveis e artisticamente inteligentes. Nem que para isso, um criador tenha de seguir os desejos do público (sem perder a sua identidade). Mais tarde, com a fidelização, já pode pensar melhor em liberdade e aí sim, ditará tendências e influenciará muitas mentes. Juntamente a um negócio próspero.

    Portugal tem muito que equacionar. Não seria descabido reunir os designers para discutir este e outros assuntos. Discutir estratégia conjunta que vá para além da criação de uma semana de moda. Os bairros de moda são uma ideia.

    Fidelizar um povo e mais tarde vender a imagem lá para fora seria outra ideia. Isso parte da estratégia e por agarrar os pontos nevrágilcos da identidade de um povo. Que comece nos nossos símbolos, por exemplo.

    Lá fora, é uma forma de criar uma imagem e vendê-la. Vejamos o Brasil que em moda tanto usa o padrão do calçadão do Rio e isso encanta não só os nacionais como vende imenso lá fora. Não me refiro apenas aos biquinis, as marcas de topo não se cansam de recorrer aos símbolos. Vende, cria uma identidade, uma aproximação emocional e cria até tendências acolhidas noutros cantos do planeta.

    Muito, muito há para dizer!

    Beijinhos

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    1. Há comentários melhores do que os próprios posts e este é sem duvida um deles. Há tanto para mudar mas tanto. Por muito que haja aquele "pequeno poder" português, aquela mesquinhez de defender o que é de autor dê por onde der, tanto na dança, como no cinema, como na moda... Enquanto os egos não caírem ao ponto de atraírem mercados pouco será feito. Mas creio que a nova vaga já não toma as coisas por tão garantidas. Queres se expressar, sem dúvida mas sabem se vender. Espero que sim, que algo mude no futuro. A ideia dos bairros é genial. Tão simples e exequível. O que é preciso é que estejam cá pessoas, como a Joana, como tu, como eu, que tenham ideias e vontade de ajudar ;)

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    2. Foi só porque fiz um dos testamentos habituais. ;)

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