Sunday, 3 September 2017

Oregon Eclipse Gathering



The real you is pure poetry, pure creative possibility, and pure delight. The closer you come to realizing this, the closer you come to finding your heart's most treasured path. This is what your dreams keep telling you, so open your eyes wide. 
You are so much more than you think you are.

Ana Lora Garrard 
(Retirado do livro Your Dreams que comprei em segunda mão em Portland)



Por onde começar? Bem eu não acho que consiga explicar muito claramente aquilo que foi o Eclipse Gathering ou o que vivi. Não que vocês não tenham abertura para isso pois acredito que tenham (vá, uma grande maioria sim), a mim é que me falta vocabulário e lucidez para passar para o papel uma experiência tão intensa. E é engraçado falar de lucidez pois comentei isto ao longo da semana que estive em convívio com outras pessoas fora do festival. Encontrei muitas pessoas interessantes em Portland e San Francisco, especialmente SF, mas nunca uma massa tão lúcida de pessoas como no Eclipse. E quem vir de fora acha isto um pouco estranho porque afinal eram um bando de freaks. "Nós somos freaks?" Perguntei eu ao meu marido a meio do festival. E ele respondeu-me que não sabia. Eu disse: "espero que sim." 



No caminho para aquela floresta encantada no Oregon, durante a road trip de 900 km feitos numa motor home com 3 pessoas que tínhamos acabado de conhecer e um amigo de outros carnavais (literalmente), estavam todos a dormir quando eu e o Jay, dono da van tivemos esta conversa. Estávamos apenas os dois acordados e eu consegui entrar com ele a um nível de profundidade intelectual que normalmente não consigo. O Jay tem cerca de 60 anos e é produtor de música. Trocámos vivências, falámos de sonhos, a dormir e acordados, ambos chorámos. A determinada altura achei que estava a viver ali na estrada a primeira epifania desta minha viagem, foram várias é certo. E houve algo que o Jay disse que define todo este percurso entre entrar no festival, viver uma semana intensa e sair para o mundo cá fora tão diferente. Algo como: "If there is going to be a total solar eclipse in America for the first 99 years in history, there's no place I'd rather be than in the middle of a beautiful forrest with 55 thousand more freaks." (Well neither do I Jay, NEITHER DO I). 
E na altura disse-lhe aquela coisa do Mário de Sá Carneiro no conto "A Loucura". De que a loucura é uma questão de minoria porque se em maioria fossem os loucos então os sãos, loucos seriam. E sem dúvida que este festival estava cheio de pessoas sãs, lúcidas. Freaks? Talvez. É uma questão de maioria ou perspectiva. Mas aí entramos na segunda parte da questão. O que se passa durante uma semana num festival assim? Quem lá vai e porquê? Afinal porque é que esta é uma experiência capaz de mudar uma vida?



Primeiro vou explicar rapidamente o que foi o Solar Eclipse Gathering. Este festival tem como base o Symbiosis que é um festival que acontece anualmente na California, parecido ao nosso Boom (e tanta mas tanta gente que me falou do Boom como um dos melhores festivais/ experiências do mundo para profundo orgulho meu) com música, artes e diferentes terapêuticas através de um calendário programado de uma semana, mais uma série de coisas que acontecem espontaneamente (e que algumas são as melhores de todas). A propósito deste evento único que era o Eclipse, o Symbiosis juntou forças a 14 mais festivais de todos os continentes e juntos, criaram nesta linda floresta junto a um lago no Oregon, um micro cosmos. Uma aldeia global onde o amor era a língua falada. O festival tinha 6 palcos principais e vários domus para terapias e workshops mas um pouco por todo lado algo estava a acontecer. Fosse um tarot gigante em que cada porta era uma carta ou uma praia com escorregas onde os insufláveis ultrapassavam as centenas, fosse o Dave the Rainbow que era um Californiano entre o louco e o génio, que passava o dia a servir dezenas de chás diferentes e a convidar as pessoas a verem os seus quadros psicadélicos numa sala que criou para o propósito. Por isso mais que estes festivais participantes, o Eclipse foi feito por cada um de nós que lá estava. E ai como foi.




Quando penso numa experiência destas alegro-me sempre por pensar que as pessoas estão a abrir um pouco os seus horizontes. Hoje em dia o nosso Boom já não é tanto visto como um bando de fritos a queimarem neurônios para os lados de Idanha. E em muito contribui a popularidade de festivais internacionais, igualmente transformacionais como é o caso do Burning Man. Não me levem a mal, mas eu agradeço que só venha quem saiba dar o melhor de si. Quem esteja disposto a abrir portas e janelas e respeitar a liberdade dos outros e a limpeza do meio ambiente. E isso foi sem dúvida o que aconteceu no Eclipse até porque era demasiado longe para alguém lá ir parar aleatoriamente. As pessoas tinham mesmo de lá querer estar. E queriam. Alguns foram de perto mas esperaram 24 horas na fila para entrar. Alguns até foram de tão longe como a Austrália ou Japão. Nós de Portugal. E valeu cada milha.




Mas afinal quem constituiu esta massa gigante de gente? Tudo boa gente sem dúvida, durante uma semana não ouvi ninguém ser menos simpático ou mais agressivo. Não vi grandes excessos também, o que até me surpreendou um pouco. Desde os yogis, os das medicinas alternativas, os que gostam de raves, os que apreciam arte, os que iam em família com 2 ou 3 filhos pequenos, os curiosos. Artistas, médicos, psicólogos, contabilistas, índios curandeiros sul-americanos. Diversas tribos. Pessoas que durante uma semana podiam ser quem exactamente lhes apetecesse ser. Que depois se viria que não era muito mais do que elas próprias porque não havia muito lugar para fingimentos aqui. 90% das pessoas por quem passavamos nas ruas de terra (sim, comemos muito pó) nos perguntavam se estávamos a ter um bom dia, elogiavam algo que tínhamos vestido ou os nossos olhos. Perguntavam de onde éramos e davam o melhor para falar um pouco do nosso país ou ensaiar umas palavras em Português. Para nos darem um abraço e dizerem que sabiam que íamos ter uma vida bonita. Para partilhar fosse o que fosse. Esta é sem dúvida uma terra do amor. Amor em elevado estado de consciência e fraternidade. Comi fruta das mãos de inúmeras pessoas, bebi águas, sumos, emprestei coisas, emprestaram-me a mim. Dei muitos abraços. Cada um tinha um bocadinho para dar, fosse a sua história, fosse algo que nos fazia falta ali onde os bens eram escassos mas a boa vontade era imensa. Por exemplo nós viajamos sempre com uma verdadeira farmácia para todas as maleitas, principalmente para um país como nos EUA, onde é difícil conseguir um antibiótico. As nossas malas perderam-se mas parte desses primeiros socorros estavam connosco e apesar de não termos precisado de nada pudemos ajudar outros que precisaram. E que ficavam tão gratos que nos retribuiam com uma peça de artesanato, com um cristal, com uma flor, com um sorriso. Não que algo fosse requerido. Era simplesmente o fluir natural deste ecossistema.




Um aldeia perfeita então? Sim e não. À noite as temperaturas caiam e nós que ficámos sem malas não podíamos ser muito criativos para o frio, que vale é que somos mais animais de dia, onde todas as cores são tão brilhantes antes de darem lugar aos néons.  O pó era muito, estive suja como nunca, no dia do Eclipse vesti um macacão de linho branco e ele chegou tão sujo ao fim do dia que eu jurei que o ia emoldurar com a frase "this is what happens when you have too much fun". Os banhos eram escassos mas sabem, ao fim de dois dias pouco importa. Conseguíamos ficar a rir durante 5 minutos seguidos quando eu parava na pista de dança para dizer que tinha uma pedra na sandália. "Descalça-te então". Para nós em muito ajudou o Lost Hotel, um ready set camp com uma cama, ficha, candeeiro e dois edredons, mas verdade seja dita quando lá chegamos as tendas deles ainda nem tinham chegado. Foi tudo parte do processo, of the trip, of the journey. Seria diferente se o jacuzzi de água quente do Lost estivesse a funcionar, se eu tivesse os meus outfits que tinha levado de Portugal, se não tivéssemos furado um pneu na ida para lá. Tudo fez o nosso percurso e ainda bem que assim foi porque um mundo perfeito não existe. Aqui só conseguimos criar um mundo um pouco mais consciente e ao mesmo tempo descomprometido. Gente que não se leva muito a sério mas que se leva muito a sério. Entendem? E todos faziam parte. Fosse a minoria de jeans e t-shirt, fosse a turma do glitter, os fatos de sereia e Elfs, as instalações de arte absolutamente magníficas. All in one.




Last but not least queria vos falar do eclipse. No dia anterior fomos a uma meditação com um homem cultíssimo que por coincidência jantou na nossa mesa no dia seguinte. Eu perguntei -lhe como podia potenciar as minhas intenções para aquele acontecimento cósmico ("intenção" talvez tenha sido a palavra que mais ouvi nesta semana) e ele disse me para as escrever. Assim fiz. Na manhã do eclipse houve uma cerimônia organizada pelos velhos curandeiros que vinham da América do Sul (e que foram uma parte essencial da minha experiência): velhos, crianças, aldeias ali representadas. Quando o céu ficou totalmente escuro e em vez do sol vimos uma bola de fogo e alguns planetas, toda a gente ficou em silêncio absoluto. Afinal tínhamos ouvido descrever aquele momento mas não estávamos preparados para a força e emoção que tomou conta de 55 mil corações. Abraçámo-nos, abençoámo-nos, chorámos. Segurei com força na mão as minhas intenções no papel que se juntaram a um cristal que me deram e depois queimei-as, juntamente com um pouco de tabaco e salva junto a um fogueira de sacred fire mantida em permanência por aquelas tribos. Eles, tais como todas as outras tribos ali presentes fizeram o seu papel, às vezes sem imaginar o quanto. E não havia cá show offs, não havia pretensões. Toda a gente estava ali a ser o que era "sem merdas"; é o melhor termo que arranjo para descrever esta massa: "sem - mer - das". Ainda que estivessem vestidos de unicórnios da cabeça aos pés.



Dei por mim a pensar várias vezes que a vida era tão simples, tão subjectiva, que nós éramos tão sortudos, que acabamos por cair no ridículo com a importância que damos a determinadas coisas. Mea culpa. Depois de 8 dias sem me ver num espelho, sem ter rede de telefone, sem saber que horas ou que dia da semana era, passei a achar que o céu é das coisas mais bonitas que já vi na vida. E a cada dia ficava ainda mais bonito. Talvez porque nunca tinha ficado tanto tempo a olhar para ele... 
O poema do Benedetti que foi lido no meu casamento diz "y las cosas más triviales se vuelven fundamentales porque estás llegando a casa". Eu aqui mudaria para "y las cosas más fundamentales se vuelven triviales porque estás llegando a casa". E esta terra sagrada foi a casa de todos nós, será sempre nas nossas memórias, nas nossas acções futuras mais conscientes e nos nossos corações. Não vamos de repente todos virar monges tibetanos, mas com certeza que algo na nossa percepção do mundo mudou para sempre.



Um grande viva a este micro cosmos onde cada um é livre de ser quem bem lhe apetecer e na sua maioria isso significa ser alguém que marca a vida dos outros. Através das histórias (histórias de vida que me encheram de esperança, outras de tristeza e coração apertado), da arte (tanta arte!), das gargalhadas, dos sorrisos e abraços, dos ensinamentos, das terapias, da música, boa música! E que marcaram a minha para sempre. Não consigo explicar muito melhor que isto. Só vos digo: vão. Saiam da vossa zona de conforto. Seja um fim de semana sozinhos numa cidade nova, seja um retiro espiritual. Quanto mais viajarem dentro e fora de vós próprios, melhor se vão conhecer e preparar de sorriso no rosto para este mundo que é bem mais cruel que este paraíso parte natural, parte artificial, mas sempre autêntico.  Vamos a mais algumas fotos que garanto, não fazem jus à beleza e surpresa de tudo o que vi.  Estas que se seguem não estão editadas, deixo à consideração da vossa retina.





































16th to 23th of August. 2017,
Ochoco National Forrest

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