Tuesday, 27 March 2018

Mondariz Balneario 20 anos depois: Percepção e Química


Esta foto de cima foi tirada ontem, mas poderia ter sido tirada nos anos 20, 40 ou 60 do Séc. XX, a verdade é que desde a sua inauguração, o Gran Hotel de Mondariz mantém esta mesma fachada que observamos aqui. Em 1973 porém, houve um grande incêndio que destruiu o hotel, deixando-o abandonado, com as paredes da cor do carvão, com as janelas partidas e a vegetação selvagem a crescer descontroladamente por entre as ruínas. Foi assim mesmo que eu conheci o Gran Hotel. No dia 1 de Setembro de 1997, recordo a data pois foi o o dia após a morte da Princesa Diana, eu chegava com 13 anos a Mondariz pela primeira vez (foi nesta viagem também que instituí esta data como o meu balanço anual como descrevi neste post de 2011) para um, hoje dir-se-ia, "retiro". 

O Hotel Mondariz Balneario tinha acabado de abrir, bem em frente ao antigo Gran Hotel (e de onde tirei esta foto ontem), e a minha mãe que sempre teve o hábito de passar temporadas em termas, levou-me para esta conhecida pelas suas águas milagrosas e ambiente acolhedor. Não sei quantos anos o fiz, mas sei que pelo menos durante três anos seguidos o repeti. Chegávamos ao Hotel Balneario, e a primeira das coisas era ir a uma consulta com o médico das termas, que nos dava a quantidade de copos de água a beber por dia, uma água semi-quente com cheiro insuportável a enxofre, e outros tratamentos recomendados para outras maleitas. A mim calhavam-me três copos três vezes ao dia, uns tratamentos ao acne e outros para os meus problemas respiratórios. Recordo-me que os meus 10 a 15 dias passados em Mondariz, se dividiam em beber as águas, o que me custava sobremaneira, ir para o balneário (não existia tal coisa como spa) fazer os tratamentos de pele e outros para o meu nariz, passar as tardes na piscina do hotel com outros miúdos, o fim do dia na piscina de água quente sozinha, com música clássica muito alta que me fazia sonhar acordada enquanto dançava dentro de água, e as noites a jogar um jogo celta num tabuleiro em madeira com bolas em pedras lapidadas com as pessoas que fui conhecendo ali e na mesma altura do que nós, todos os anos, repetiam a dose. 

Uma das minhas obsessões porém era o Gran Hotel. Esta ruína gigante estava bem em frente à minha janela do quarto, ou à piscina do hotel, ou onde fosse, era omnipresente. De manhã, quando íamos beber as primeiras águas mal cheirosas da fonte entre os dois hóteis, eu e a minha mãe entretínhamo-nos a passear pelas ruínas demoradamente (cada copo devia ser ingerido com intervalo de 15 minutos). Era com um misto de curiosidade mórbida e temor, que eu desbravava as plantas, para poder caminhar e observar o que restava do hotel. A estrutura estava lá, mas apenas esta se mantinha. Através dos vidros partidos eu tentava adivinhar se ainda lá estariam cadáveres, e quando chegava à outrora piscina, há 20 anos um buraco no chão muito grande com um fundo de água escura e sapos, eu fechava os olhos e sonhava acordada com as senhoras da época nos seus trajes próprios, trocando segredos da sociedade da altura e olhares atrevidos. 
É que a minha mãe vendo-me muito interessada no Gran Hotel, ofereceu-me um livro de capa dura com a sua história e registos fotográficos desde o séc XIX até ao incêndio que o engoliu, o que bombeou ainda mais o meu fascínio. Se viram a série espanhola homónima "Gran Hotel" podem imaginar as fotografias, de um dos sítios favoritos da alta sociedade espanhola e até realeza europeia para descansar e recuperar forças enquanto bebiam "as águas". 

À noite, recordo-me que acordava quase diariamente com uma cãimbra na perna direita, o que aconteceu durante muitos anos, (esquecemo-nos de pedir ao médico das termas extra-magnésio), e por vezes, incapaz de voltar a dormir, encostava-me um bocadinho mais à minha mãe, arrepiada de medo ao pensar nos possíveis fantasmas que estariam a dormir mesmo ali ao lado. Apesar disto, estes eram dias felizes. Recordo-me que a minha mãe me deixava meter as mudanças no carro, passeávamos pelas cidades próximas em busca de outras cascatas com águas medicinais, íamos às compras onde eu voltava invariavelmente com tabletes de chocolate Nestlé maiores que os meus braços, e era acima de tudo tempo de qualidade e cúmplice passado entre as duas, extendido aos tais miúdos e graúdos que eram já como amigos da família.

Foi porém num dos meus tratamentos para os problemas respiratórios, que vivi um dos maiores sustos da minha vida. Entre vários, este tratamento consistia em ficar algum tempo, julgo que não chegava a uma hora, numa banheira com jactos e várias ervas, como menta e eucalipto que me abririam os pulmões. O sítio em si era um pouco assustador, lembrava aqueles laboratórios químicos que víamos nos filmes. A foto em baixo também foi tirada ontem e acredito que agora a sala esteja mais deteriorada, pois há 21 anos era nova, mas mantém-se igual. Ora que lá fiquei fechada na sala, entertida com os jactos quentes a brincar com a água, como era normal na minha idade. Ao fim de algum tempo eu achei que água estava a ficar muito fria. Achei também, que se calhar já tinha passado mais tempo do que o suposto. Quando olhei para o meu bikini, um modelo branco da Armani Swimwear que a minha mãe me tinha oferecido e pelo qual eu era fascinada por ser de mulher apesar de me estar grande, ele estava verde. Então, pensei eu na altura "realmente eu estou aqui há muito mais tempo do que era suposto pois se até o meu bikini branco já está verde e a minha pele toda encarquilhada"... Comecei a gritar de dentro da banheira para uma das simpáticas raparigas do Balneario: "holaaaa", "miraaaaa", "chicaaaaas" e por aí. Ninguém respondia. Aterrada de medo, levantei-me da banheira e fui até à porta, abri e verifiquei que estava tudo escuro. Continuei a gritar, mas era oficial, não estava ninguém ali. Creio que fiquei mais branca, do que branco que era o meu bikini outrora. Meti-me novamente na banheira, o meu sítio seguro, e tentando não pensar no que me assombrava à noite, lá fiquei, por algum tempo. Curioso como me lembro de tudo nitidamente passado tantos anos, mas não me consigo lembrar se chorei, aliás, desde o momento em que percebi que estava fechada sozinha no Balneario, que as minhas memórias são um pouco difusas, a tal história dos mecanismo de defesa que temos. A partir daí conto pela boca da minha mãe, que depois de se fartar de esperar por mim no quarto, para que eu ainda me arranjasse para sairmos para jantar, foi procurar-me ao Balneario, que já estava fechado e, asseguraram-lhe, com ninguém lá dentro. Mas ela conhecendo-me, insistiu, até que abriram a porta gritando o meu nome e lá estava eu, como um pintainho assustado, um pintainho pequenino de bikini Armani de mulher completamente verde e molhado. 


Estamos agora em 2018 e o meu marido, que está farto de ouvir esta e outras histórias de Mondariz, desafiou-me a ir lá passar uma noite. Eu não sabia o que tinha sido feito de Mondariz desde então. Fui pelo caminho a falar-lhe do jogo celta em pedra, da piscina de água quente com uma clarabóia onde eu sonhava sozinha e principalmente das ruínas do Gran Hotel. Quando lá cheguei, apesar de reconhecer instintivamente cada metro quadrado, vi o quanto tudo tinha mudado. O hotel já não tinha o charme e a classe de há 20 anos. O jogo celta tinha desaparecido. A piscina de água quente com uma clarabóia como eu a lembrava, era afinal uma pequena piscina num segundo andar envidraçado (mas sim, a música clássica alta mantinha-se). O Balneario continua mas é hoje apenas uma pequena parte, pois de lado do hotel e junto às águas sulfurosas (que hoje ninguém bebe), foi  construído o Palácio das Águas, auto-proclamado como o melhor spa de Espanha. E mais importante de tudo, a ruína tinha dado lugar a vários apartamentos de luxo, mantendo as fachadas originais que vêem na primeira foto. Questão dos tempos ou da percepção, não sei. Os olhos de uma menina de 13 anos são certamente diferentes dos de uma de 34, principalmente quando o filtro importante da memória e da imaginação, se metem ao barulho. Uma coisa não mudou porém. Decidimos fazer o circuito celta e 2 minutos depois de estar molhada, o meu fato de banho branco estava amarelo, e as minhas pulseiras de prata totalmente pretas. Recordei o episódio do esquecimento na banheira e percebi que o meu bikini não mudou de cor pelo tempo que lá estive e sim, imediatamente após me ter molhado graças a uma recção quimíca de um componente nas águas, como aconteceu agora novamente. 

História, memória, imaginação e percepção, pouco importam. Estas variam muito em função de quem somos ou do que vivemos. Já com a quimíca, bem se for uma questão de química, não há mesmo nada a fazer, nem em 1998 nem em 2018. Tudo mudou, mas a química em Mondariz mantém-se a mesma. 

1 comment:

I believe in the power of Love! Thank you for coming and sharing.

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